Felicidade é uma cortesã de seios fartos e sorriso de plástico.
De olhares pré-fabricados e frases pasteurizadas.
Das suas mamas corre uma cerveja podre
que todos insistem em beber.
É uma bebida pestilenta que permanece dias
remoendo em tuas vísceras.
A Felicidade desdenha os fracos e miseráveis
que não podem pagar por seus serviços.
Ela sacode suas vastas carnes
olhando de solsaio com escárnio
para os mortos de fome
cheios de água na boca.
Ela te faz esquecer dos dias.
Ela te joga do mais alto dos prédios
e seu único rastro de sinceridade é a candura
ao te ver estatelado no chão frio
enquanto tentas em vão realojar tuas carnes
tuas carnes jogadas em fraturas expostas
tentando em vão se recuperar e subir infinitos degraus
para em vão alcançá-la novamente.
Havia um pássaro dos mais belos membros alados
de fâneros cuja iridescência convertia até os mais céticos em seus fiéis soldados
Havia um pássaro de voo tão sublime que o próprio vento vinha lhe ajudar
Havia um pássaro de canto tão formoso e belo que fazia Cronus desistir de devorar
E havia um cão
daqueles mais sarnentos, lazarentos
da espinha rachada, da perna quebrada
da língua pra fora da boca cheia de dentes faltando
que por tanto a ave amar
e sem saber seu amor declarar
pegou do pássaro, quebrou seu pescoço,
arrancou suas penas
e delas fez um colar.
Sons primevos
e esse teu gato gordo reclamando sem parar.
Sons primevos
dessa bagunça toda que encontramos no dia seguinte
Sons primevos
junto às folhas no jardim
Sons primevos
e essa gata malhada mirando sua próxima vítima
Sons primevos
de minhas vísceras voando pela janela
Sons primevos
de luzes e sirenes
Sons primevos
do teu felino me usando de escravo com uma escova no banheiro
Sons primevos
de uma pá no quintal para enterrar
para enterrar esses animais e esses livros mortos
Pares de olhares anônimos
Faróis que serão apagados no próximo segundo
Centenas de milhares de pessoas
e tudo pode vir a ser
E, à noite, vive a moça e sua T.V.
Meu conhaque no sereno
Um casal de amantes na esquina
e toda uma regra a ser quebrada
E, à noite em minha sacada sacada,
sobram só a moça e a T.V.
Pilhas de insensatez
Sonhos que viraram pó
A garrafa inteira de xerez
e esse desejo que me espreita quando ando só
Centenas de milhares de pessoas
e tudo pode vir a ser
E, à noite, só me resta a lembrança da moça e sua T.V.
esse é o tipo de coisa que o cidadão TEM de repostar.
(Source: issos)
Toca o velho trombone,
a orquestra me chama
à luz carmesim.
Um casal sozinho dança
e eu me enrosco em teu cetim.
O costume matou meu desejo se foi
água abaixo pêlo ralo
no meu rosto uma luz se apagou
no meu peito e o meu copo vazio.
A sarjeta repleta de olhares perdidos
e eu tentando andar na contramão.
A cabeça imersa num quarto cinzento
de dores e desilusão.
Esses dias ele andou tentando digitar algo no
meu computador. De novo. Por isso que ando com a
máquina desligada. Oh, sim, agora ele acaba de
sair pela porta. É, existem várias histórias de
fantasmas e essa é só mais uma delas. Ontem ainda
ele me pediu uma xícara de café e nem mesmo tocou
nela. Perguntei se faltava açúcar mas não obtive
resposta. Ele nunca me responde. Só sabe pedir.
Nem me disse seu nome e nem nada. Devo tê-lo achado
em alguma rua por aí. Ele me pediu um cigarro se
bem me lembro. Me pareceu um cara legal. E não sou
do tipo que sabe dizer não pros outros. E no fim das
contas ele não é um cara ruim. Só gosta de ficar na
volta. Às vezes me pede uma maçã ou pra sair por aí.
Pergunto se ele não pode fazer tudo isso sozinho.
Ele simplesmente não responde. Só continua pedindo.
E no fim das contas não é ruim sair por aí comendo
uma maçã. Incomoda quando ele tenta me olhar pelos
espelhos. Mas ele é um cara legal. Nunca saiu virando
tudo pela casa, sai do caminho quando alguém está
passando e não é do tipo de fazer muito barulho. Ele
só fica pedindo alguma coisa de vez em quando. E no
fim das contas não é ruim deixar a luz do corredor
acessa; não é ruim comprar um livro de um autor des-
conhecido e ler só até a página treze; não é ruim
assoviar uma canção que ainda não existe; não é ruim
sair por aí às onze da noite só com um maço de cigarros
no bolso; não é ruim parar o quê se está fazendo só
pra olhar um pardal na janela; não é ruim arrancar um
fio da barba só pra vê-lo queimar no isqueiro; não é
ruim ficar encarando aquele par de olhos estranhos do
outro lado da rua; não é ruim ficar parado no sol do
meio-dia; não é ruim deixar a chaleira no fogo até
toda água evaporar e o gás chegar até o fim; não é ruim
deixar seu ônibus passar e esperar uma eternidade pelo
próximo lotado e não é ruim abrir o próprio ventre e
tentar colocar tudo pra dentro de volta. Meus amigos
perguntam por que ainda não o mandei embora. Não sei.
Acho que no fim das contas ele é um cara legal.
Lorca me lembra o Mar… tantos caracóis, sargaços e outras algas. Tons cinzas e barulhos vários… Aquele cheiro! Ah! Aquele cheiro de sal e coisa já morta… mas um Mar… que não tem aqui… um Mar de Granada… e Anda… Luzia… Também tu… me lembra… o Mar… Amor… “O Mar é tão lindo!”… e eu deveria… ter dito tanta… coisa… Tudo o que sinto… sobre o Mar… e quero dividir… contigo… Eu estava tonto… e não podia… balbuciar… uma só palavra…O som das… gaivotas e o cheiro… dos Lobos-marinhos… O MAR! É TÃO LINDO!… Um dia, sentaremos… eu… tu… um vinho… e Lorca… E uma guitarra… e uma canção dos fios de nylon… e o Mar… a nos sorver… o Mar… a… nos sorver o… Mar a… nos… sor… veeer…
O Insolarável
É o samba da pessoa conversível,
Os óculos da mulher postiça,
Da Vida postiça
Da gente postiça…
O Insolarável
Sempre chama a atenção
Sempre atua da cadeira
Sempre move a multidão
dos parvos
Segue a Vida, Insolarável!
Guia-nos por teus becos sem saída! Insolarável!
Mostra Tua imensa falsidade, Insolarável!
Mostra toda Tua sedução e inutilidade!
Ai! Daria tudo para tocar-Te!
Tocar-Te só e nada mais…
Mesmo por curto momento…
Já me babo toda, Insolarável!
Só de pensar em Teus Vãos,
E Debaldes, e Vazios, e Inúteis!
Me ponho louca! Insolarável!
Me ponho Louca!
Só de pensar em ser mais uma
Das idênticas e inúteis criaturas
Que vivem sob Tua parca e miserável Luz!